Todos os dias eu pego ônibus para ir e vir do trabalho. Tem dias que fico ouvindo música e pensando na vida, nem parece que estou onde estou, tem dias que fico olhando apenas a janela, em outros dias eu fico cuidando tudo ao meu redor e há também os dias em que faço tudo isso ou nada disso. Geralmente não há muitas coisas a me surpreender, mas dia desses aconteceu algo diferente e nojento. Vou relatar.
Entrei no ônibus (como sempre), cumprimentei o motorista (como às vezes), passei na catraca com meu cartão de estudante (como muitas vezes) e logo depois me deparei com vômitos enormes no chão do ônibus (como nunca). Não era um vômito encolhido no seu canto, ele estava lá inundando o lugar. Ele estava no meio do ônibus, no chão, bem onde todos precisam passar e tocava um pouco do banco também, no fundo do ônibus perto da porta de saída ele também estava lá, para não passar despercebido mesmo! Nojento como só ele sabe ser. E mais ainda, pois não sei de onde veio e nem porque veio! Mas veio e estava lá.
Marquei meus passos pelos poucos espaços onde o vômito não tinha alcançado. Por onde eu olhava parecia que eu o enxergava, optei por me sentar bem ao fundo, no banco de trás bem no meio, onde era possível ficar visualizando o vômito a viagem inteira, mas é claro que não era isso que eu queria, era o único lugar mais afastado dele onde eu consegui espaço para sentar. Ainda bem que não enfrentei lotação!
Eu bem que tentei, mas passei os 15 minutos da viagem olhando para ele, é como se ele me sugasse, a cada olhar minha expressão de nojo inundava a minha face.
Entrou uma criança, de tênis branco e não viu ele. Nem preciso dizer que só faltou escorregar.
Entrou um rapaz de boné, sentou bem no banco sujo, o mais sujo. A senhora que estava na minha frente colocou a mão no rosto neste instante, como quem segurasse o grito “não senta aí”, e como quem quisesse afastar o cheiro do nariz, que aparece mais ainda quando alguém mexe nele.
Entrou uma senhora de casaco vermelho, viu ele e pareceu comigo, parecia que ela queria sair dali, descer e pegar outro transporte, mas não o fez, passou a catraca e seguiu em busca de lugar seguro, se afastando o máximo que podia. Sua expressão de nojo guardei na memória.
E assim foi, entraram pessoas que só faltava dançar em cima dele, não o viam mesmo, e entravam outros mais atentos.
Fiquei até com pena dele. Quando visto, era tão repugnado pelas pessoas, quando percebido era um sinal de sujeira podre e intensa que perturbou a viagem toda. Lembrei-me do livro de Kafka, A Metamorfose. Nem posso lembrar que ele vem de nós mesmos.
Enfim cheguei ao meu destino, levantei e avancei em direção a porta de saída, cuidando para ficar o mais longe possível dele, precisei me segurar no corrimão e neste instante pensei “certo que a pessoa que vomitou colocou a mão na boca para limpá-la e depois colocou a mão neste corrimão para descer”. Pronto, o vômito já estava em mim, não somente em meu pensamento, mas em minhas mãos. E neste instante senti nojo de mim também.
Marcela.
Pelotas, 11 de novembro de 2009.